Um dos assuntos mais complicados que temos, ao definirmos música, é que ela seja ou não popular. Fica difícil imaginar que, por exemplo, tudo derivado do rock seja popular, mesmo com seus fãs imaginando que ser pouco conhecido signifique “não-popular”. E como ter uma vanguarda dentro disto?

A música industrial vai nascer justamente nesse ponto, quando o ser popular significar ser fácil de vender. O rock (e por consequência, o metal) se tornam comerciais e acessíveis, passíveis de reprodutividade. O punk, com seu ideal todo, passa a ser vendido com um estilo de “reação” contra a sociedade. E nesse contexto que Genesis P-Orridge vai tocar.

Com o Throbbing Gristle, começava uma era onde o importante era inovar. Estar a frente dos outros. Seguidos pelo Monte Cazazza, Cabaret Voltaire, Clock DVA, SPK, Test Dept e até mesmo o Leather Nun, só para citar alguns exemplos. Como consequência, o rótulo “industrial” passou a ser colocado em bandas que vinham da gravadora de Genesis e, consequentemente, a bandas que faziam uma sonoridade baseada em ruídos, música e outros elementos não musicais.
Como consequência, surgem, logo depois, as misturas e os desmembramentos da música industrial. Essas misturas e apropriações vão acabar sendo o que se convencionou como post-industrial. São estilos que se misturaram e geraram coisas novas, coisas que ainda estão em evolução (excetuando dessa lista alguns gêneros que ganharam popularidade) e, acima de tudo, mostraram ao mundo que a vanguarda pode ser mantida dentro desses estilos.
Os gêneros dentro do post-industrial
Aqui eu vou relatar, de forma bem resumida, o que veio depois do industrial.
Dark ambient
Aqui temos uma diferença crucial com relação ao industrial: sai um pouco da densidade de som e entram sons mesclados com o próprio ambiente. O uso de drones, de ruídos ambientes, criando uma certa atmosfera no som, dá vida a esse gênero.
Ele tem uma ligação forte com o industrial, tendo se iniciado com o Coil e seguindo por bandas como Lustmord, Aghast, Zoviet France e Deutsch Nepal (esse, com uma certa ligação com o neofolk).
Electro-industrial

O uso de baterias eletrônicas (que é uma das características do electro) dá corpo a música, que abusa de vocais sintetizados e o pouco emprego de instrumentos de verdade. Tem como precursores os grupos Die Form, Klinik (ainda que esse oscile muito mais entre o EBM e o Electro), Skinny Puppy e Front Line Assembly. Mais tarde se consolidaria com grupos como Android Lust, Velvet Acid Christ e o Leather Strip (que guarda muito do experimental em sua música). Não há o interesse por temas subversivos, mas sim por coisas como filmes de horror, ficção científica e ativismo político. Contudo, esse é um estilo que foi muito deturpado (assim como o EBM) pela assimilação no meio gótico. Vão surgir, dessa leva, bandas que perdem muito do lado industrial e colocam algo muito mais “dançável” por assim dizer.
Electronic body music
O famoso EBM, nasce da fusão do industrial e da música dance. Isso vai resultar num estilo com uma sonoridade bem mais limpa. As temáticas musicais passam a ter um apelo mais militar, contrastando aquele ideal de subversão do industrial.
Surge com o Front 242, que declarou que sua sonoridade era justamente o Electronic body music. Esse termo já foi usado anteriormente pelo Kraftwerk para denominar o álbum “The Man-Machine”.

Foi mais um gênero que sofreu com a onda gótica e de clubes no mundo todo. As bandas mais novas passaram a incorporar influências de trance, de techno e até mesmo de heavy metal para tornarem seu som mais fácil de ser assimilado. Nessa leva surgiram grupos como Grendel, Suicide Commando, Combichrist e outros. Esses grupos sofrem preconceito dentro da cena EBM, uma vez que se afastam demais da sonoridade original (e alguns dizem que esses grupos, na verdade, não pertencem a este estilo de fato, mas sim soam como uma versão trevosa e metaleira de trance music).
Existe agora uma leva de bandas que tenta resgatar um pouco desse lado mais “old-school” dentro da cena, como os grupos do intitulado Anhalt EBM, que vai buscar elementos dentro do Oi! e de outros estilos para compor algo mais próximo do que fazia o Front 242 e não soar mais como uma música de gótico.
Noise

Isso vai começar a se definir como um estilo propriamente dito na década de noventa, com grupos que vão levar o experimentalismo do industrial e usar apenas os barulhos como música, provenientes de objetos, de samplers e qualquer coisa que possa gerar barulho.
No Japão isso ganha uma proporção muita grande, dando origem ao Japanoise, introduzido pelo músico Masami Akita, criador do projeto Merzbow. Artistas como Nurse With Wound, Teatro Satanico, NON etc. passarão a ser chamados de noise.
Power noise
Ou rhythmic noise, como é mais conhecido, parte da mistura do noise com diversos elementos de música eletrônica, sobretudo dance, techno e trance. Assim como o EBM, ele se torna muito mais acessível ao grande público, perdendo a parte de inovação e ganhando em ritmo.
Esse estilo ainda não sofreu (muito) com a popularização nas pistas de dança, até por soar ainda um bocado estranho aos ouvidos de algumas pessoas. Ele vai também ser muito influente na concepção do digital hardcore e do speedcore, que levarão o conceito de “não-musicalidade” dentro de seus estilos, mas ainda sim tendo uma certa base rítmica.
Alguns grupos bem proeminentes dentro do estilo (algumas vezes confundidos com EBM) são o Xotox, o Noisuf-X, [x]-Rx, FabrikC etc. Esse estilo tem como base gente que curte o chamado “electro-gótico” e os rivetheads em geral.
Power Electronics
O termo surge quando William Bennett, do Whitehouse, descreveu a música de seu projeto. Esse estilo prima pela distorção exagerada, letras extremamente agressivas e posturas radicais dos membros dos grupos. É altamente elitista, mantendo muito do ideal de contracultura e de experimentação , com grupos que se apropriam do harsh noise, de sonoridades altamente agressivas, tudo isso sempre com muita violência. É o lado mais brutal, agressivo, ácido e subversivo dentro do industrial. Ele envolve muitas facetas políticas, sociais e ideológicas, levando temas como ódio, racismo, preconceito, destruição, sadismo, perversão e, acima de tudo, tudo isso integrado de forma harmoniosa.
É muito comum os integrantes estarem envolvidos com atos de terrorismo, nazismo, intolerância racial e religiosa, crueldade e crimes políticos. É o extremo do extremo, com radicalismo exacerbado. Tudo isso convivendo entre os fãs, que ignoram diferenças em homenagem ao culto dos extremos da degradação social. Tem como expoentes os grupos Whitehouse, Jugend Suitcliff, Genocide Organ, Atrax Morgue, Con-dom, Dytstum Terror e outros.
Neofolk
Esse estilo nasce da fusão do experimentalismo industrial com a música folclórica. Ele junta o som acústico com os experimentos do industrial, dando um ar menos carregado ao gênero.

Dentro dele vão existir diversas correntes, como o Dark Folk, que irá levar um lado mais sombrio ao som, dando um clima mais melancólico, com grupos como o Ritual Front e o Sangre Cavallum. Não pode ser atrelado diretamente ao neofolk, embora guarde boas semelhanças com ele. Tem também o Apocalyptic folk. Esse nome foi dado por David Tibet para descrever uma das fases do Current 93. Esse estilo vai ter um som que foge, em termos de temáticas, da ancestralidade e da simbologia envolvida e vai seguir por caminhos mais voltados ao esoterismo. Isso não se torna uma regra, uma vez que grupos como o Ô Paradis não tem esse lado esotérico. Tem como representante forte dessa vertente o grupo Ordo Rosarius Equilibrium, que também possui uma fase mais experimental. Há também ligações com o dark ambient, com grupos como Neutral.
Martial Industrial
Conhecido por alguns como military pop, é derivado do neofolk e do dark ambient. Incorpora também o neoclássico, como acontece com grupos como o March of Heroes.
É, na maior parte das vezes, um som dark ambient com temáticas militares, com uma percussão que sempre vai lembrar aquela usada em marchas militares. Oscila bastante com o neofolk e é muito comum ambos os estilos se cruzarem numa mesma banda (como acontece com o Von Thronstahl, o The Day of the Trumpet Calls e o Death in June). O Laibach, no começo de sua carreira, também flertou com esse estilo, o que ajudou na concepção de grupos como o Rammstein.
Industrial Rock/Metal
Bem, chegamos ao estilo post-industrial mais famoso e mais acessível de todos. Estão próximos demais um do outro e muitas vezes é difícil saber quando um grupo é de industrial rock e quando ele é de industrial metal. Ambos se baseiam, atualmente, na mistura de rock ou metal com um ruído branco e o uso de instrumentos de música eletrônica, com sintetizadores e bateria eletrônica.


É claro que existem muito mais correntes dentro desse estilo, com coisas como o aggrotech e até mesmo o industrial hip-hop. Contudo, a ideia desse artigo é dar uma visão mais geral do que se caracteriza como post-industrial e os seus desdobramentos.
2 comentários:
Nossa cara muito bom mesmo adorei
Muito bom!!!
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